“Vocês, executivos de TI brasileiros, estão respondendo à inteligência artificial (IA) com os recursos que o ecossistema do seu país proporciona?” Foi com esta provocação que o professor do MIT e autor da teoria U, Otto Scharmer, abriu sua palestra no IT Forum Trancoso 2026. Sob o tema “Do egossistema para o ecossistema”, o especialista falou sobre a necessidade de mudança na forma de liderar organizações para obter resultados na nova era da IA.
Para ele, diante de tantas crises globais e de uma transição geopolítica que caminha para um sistema de multipotências, o mundo vive um momento de ilusão de insignificância, no qual a maioria das pessoas se sente impotente e, portanto, não consegue agir em direção ao novo. A problemática se torna ainda mais grave diante de um cenário que pede por inovação constante.
“É na lacuna entre esses dois números onde mora o nosso maior problema de liderança”, indica.
Os quatro níveis de escuta
O problema, segundo Scharmer, está na desconexão da própria liderança. Cada vez mais acostumados em suas próprias bolhas, a maioria dos dirigentes se distancia da realidade e, portanto, de seus liderados e dos problemas a serem solucionados. É nesse sentido que o autor traz como conceito a teoria U: a jornada de volta ao ecossistema, ao ambiente e às conexões nas quais estamos inseridos. A chave para tal seria a escuta.
Scharmer descreve quatro níveis de escuta. O primeiro, downloading, é quando o indivíduo busca ouvir apenas aquilo que já sabe e confirmar sua visão de mundo. O segundo, factual, busca por informações que destoem do padrão. O terceiro, empático, leva o ouvinte a se colocar no lugar do outro e entender outros pontos de vista. O quarto e último é o ouvir da fonte: neste nível, o líder amplia a escuta a ponto de captar o não dito, percebendo tanto o que seus liderados precisam no momento quanto possibilidades de futuro.
O pesquisador faz uma ressalva: o futuro precisa ser visto como uma possibilidade tangível. “Quando falamos de futuro, as pessoas falam sobre 2050, 2070, e isso também gera uma desconexão. Aprendi com os inovadores que o futuro é algo aqui e agora, porque o futuro é uma possibilidade que me observa porque depende de mim para se manifestar. Não é apenas algo que projetamos. É algo que as pessoas experimentam como uma sensação tátil”, explica.
A proposta é que, com isso, as comunidades passem a aprender não só com seu passado, mas também com seu futuro. “Chamo isso de escuta generativa, onde resgatamos o papel real dos líderes, que vai além de reagir. Nesse modo, você responde à sua situação prestando atenção não às dificuldades de hoje, mas ao que pode querer alcançar amanhã. Você olha para o potencial, e não apenas para o lado problemático das coisas. A questão é que escolhemos como escutar todos os dias”, afirma.
A escolha seria o ingrediente final para que as lideranças se transformem e a inovação possa de fato acontecer. Para Scharmer, não há como passar pela teoria U sem trabalho interno. Fazendo uma analogia com sua infância no interior da Alemanha, o pesquisador compara essa jornada ao ato de tentar colher frutos sem plantar sementes de árvores fortes.
“Você não transforma um sistema sem transformar uma consciência, mas não há consciência sem que o sistema sinta e perceba a si mesmo. E você não pode fazer nada disso a não ser que crie estruturas que ofereçam ferramentas, práticas e espaço de respiro para dar suporte a essa transformação”, provoca.
Olhando para as experiências passadas da humanidade com outros tipos de tecnologia, o especialista reforça que, para o melhor proveito da IA, as organizações precisam investir em seus líderes para que se conectem novamente com seus ecossistemas e imaginem novas maneiras de desenvolver tecnologia.
Scharmer conclui que o futuro não pertence às empresas que investem apenas na inteligência artificial, mas àquelas que reconhecem as diferentes formas de inteligência e equilibram o espaço de cada uma delas.